Dentre as condutas utilizadas para o tratamento do câncer,
a quimioterapia e a radioterapia são responsáveis
por inibirem o crescimento ou destruírem totalmente
as células neoplásicas. No entanto, essas
terapias não diferenciam as células neoplásicas
das células normais que se proliferam rapidamente,
como as mucosas da boca ou da medula óssea, por exemplo.
"A quimioterapia é uma modalidade de tratamento
sistêmica, pois produz efeitos orgânicos gerais,
principalmente no trato gastrointestinal, agravando condições
bucais pre-existentes", explica o chefe da Seção
de Estomatologia do Instituto Nacional do Câncer -
Inca.
Quais os sintomas do tratamento?
Assim como a radioterapia, a quimioterapia causa, entre
outros efeitos colaterais, xerostomia (boca seca) e mucosite,
que é a degeneração progressiva do
epitélio de revestimento das mucosas. "Em casos
avançados (estádio IV), a mucosite se apresenta
sob a forma de inúmeras lesões ulceradas,
o que significa uma possível porta de entrada para
infecções sistêmicas, que podem ser
letais", afirma Monteiro. "Devido às condições
hematológicas desfavoráveis como a leucopenia,
por exemplo, infecções secundárias
(candidíase) estão muitas vezes presentes."
Segundo o coordenador do Serviço de Medicina Bucal
do Centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês,
aproximadamente 40% dos pacientes tratados com quimioterapia
podem precisar do tratamento odontológico. Estes,
normalmente, são os pacientes que fazem o tratamento
contra tumores sólidos.
Os pacientes submetidos à quimioterapia de alta
dose, para combater cânceres no sangue, por exemplo,
ficam internados e cerca de 60% deles tem mucosite até
graus três e quatro, que são os piores tipos
na escala WHO. Se for transplante de medula,
pode-se dizer que 75% deles tem mucosite de graus três
ou quatro. Isso quer dizer que quase toda a população
internada com este problema vai precisar de um Cirurgião-Dentista.
As chances de a quimioterapia causar danos à cavidade
oral acentuam-se dependendo da idade do paciente. De uma
maneira geral, 40% dos pacientes submetidos ao tratamento
de quimioterapia desenvolvem esses efeitos na boca, passando
para mais de 90% quando aplicada a crianças com menos
de 12 anos. Embora os pacientes dessa faixa etária
tenham tendência a desenvolver tumores malignos que
causam alterações bucais por si sós,
também parece provável que o elevado índice
mitótico das células da mucosa da boca seja
um fator adjuvante nesse grupo etário. Além
disso, doenças malignas do sangue, como leucemia
e linfoma, também podem estar associadas a uma grande
freqüência de complicações bucais,
assim como os neoplasmas do trato gastrointestinal.
O papel do Cirurgião-Dentista nesses casos é
fundamental para evitar que essas alterações
e complicações bucais ocorram e, caso se manifestem,
tratá-las. "A quimioterapia deverá ser
iniciada concomitantemente com aplicações
diárias de laser de baixa intensidade de potência,
produzindo, assim, um efeito biológico positivo (processo
chamado bioestimulação), evitando o aparecimento
das mucosites orais", recomenda. Vários estudos
realizados no mundo, segundo o chefe da Seção
de Estomatologia do Inca, mostram a eficácia comprovada
do laser low intensity ou soft laser. Os efeitos bioestimuladores
desse tipo de laser atuam nos citocromos mitocondriais,
resultando em produção de ATP, aumentando
o metabolismo celular (propriedade de cicatrização).
"Alguns estudos incluem propriedades anti-inflamatórias
pela diminuição de secreção
de prostaglandina, que possui também efeito anti-edematoso
baseado na dilatação dos vasos linfáticos,
na redução da permeabilidade dos vasos sangüíneos
e, principalmente, a diminuição imediata da
dor – pelo mecanismo da modulação de
nocioceptores, modificando a ação dos impulsos
nervosos e da secreção de beta-endorfinas
e encefalinas", relata Monteiro. "Também
fazemos uso de substâncias como enzimas antibacterianas
específicas, como lisozinas, lactoperoxidase e glicose
oxidase, sem álcool, evitando injúria celular
e quadros infecciosos."
Aproximadamente uma semana ou 15 dias após a sessão
de quimioterapia, o paciente entra em imunossupressão,
que é a queda da resistência. Nesse período,
qualquer foco de infecção odontogênica
ou periodontal preexistentes pode representar um grande
risco de o paciente desenvolver infecções
bucais. "Para cada tipo de tumor existe um protocolo,
tanto de drogas como do número de ciclos. Todos eles
levam à imunossupressão.
Todos levam a uma queda de resistência do organismo",
explica o titular do Departamento de Estomatologia do Hospital
do Câncer, Marcos Martins Curi. "No pico maior
de imunossupressão, aquele quadro que estava sendo
controlado naturalmente pelo organismo pode se alastrar
ou se agudizar. Essas infecções agudizadas
podem levar à bacteremia." Em alguns desses
casos, o paciente precisa ser internado, o que representa
um aumento no custo do tratamento, alteração
na qualidade de vida e aumento nas chances de óbito.
Prevenção
Muitas das complicações bucais vindas da quimioterapia
são tão agudas e complexas que chegam ao ponto
de interromperem o tratamento oncológico. "É
sempre bom tentar prevenir para não ter de interromper
um tratamento".
E a prevenção só é feita com
o atendimento odontológico antes do início
do tratamento de oncologia. "Geralmente, o atendimento
odontológico prévio não visa a tratar
tudo." O que o Cirurgião-Dentista deve fazer
nessa fase é apenas tratar as possibilidades de infecções
dentárias, como tratamentos endodônticos ou
cáries mais extensas. "Essa abordagem odontológica
antes do tratamento visa à parte mais urgente, que
representa risco de infecção para o paciente.
O restante pode ser feito durante o tratamento de quimioterapia,
entre os ciclos."
Mas, em alguns tipos de câncer, como o linfoma de
Hodgkin (que apresenta uma evolução muito
rápida), o tratamento começa imediatamente
após o diagnóstico e não há
tempo para o atendimento odontológico prévio.
Nesse caso, é iniciado o tratamento oncológico
e, quando o paciente melhorar, terá uma resposta
a esse tratamento; então, entre um ciclo e outro,
será o momento adequado de haver uma intervenção
para o tratamento odontológico.
Quais os efeitos
colateráis
Dentre os efeitos colaterais causados na
boca de crianças submetidas ao tratamento quimioterápico,
podem ocorrer alterações na formação
dos ossos da maxila e da mandíbula e de odontogênese,
porque é uma fase em que todos os tecidos, os dentes
e os ossos estão se formando. "Dependendo das
seqüelas, a mais comum é não formar dentes,
dependendo da idade da criança e da gravidade dessas
alterações, as reabilitações
são feitas mais tardiamente e não nesse momento.
O grande desafio hoje é fazer essas reabilitações.
Uma das possibilidades que nós temos é reabilitar
a parte dentária com implantes osseointegrados. É
uma boa alternativa para a reabilitação de
pacientes jovens".
Um dos efeitos colaterais da quimioterapia de grande relevância
para a Odontologia, embora raro, representando apenas cerca
de 6% das complicações bucais, é a
neurotoxicidade, pois o envolvimento dos nervos bucais pode
causar dor odontogênica, o que é bastante semelhante
à dor da pulpite. Esses sintomas, freqüentemente,
desaparecem com a suspensão das drogas.